Lembro-me claramente da minha infância. Estudei da 1° a 4° série no Colégio Coronel Fernandes. A turma nunca mudou completamente. Às vezes, entrava uma ou duas crianças diferentes, mas a base sempre permanecia. Éramos muitos entrosados. E até hoje, quando viajo a Luis Gomes, nos reencontramos para relembrar certas histórias.
Mas também tem outra coisa que marcou minha vida na cidade. Aliás, ainda marca, pois a mulher da minha vida continua a morar por lá. Vivi momentos especiais ao seu lado, inesquecíveis... Ela, inclusive, mora até hoje nos meus pensamentos e tem espaço reservado no meu coração.
A aula acabava às 11h. Eu, apressado, saia voando para “passar” em casa. Isso mesmo: só “passava” em casa. Jogava meus materiais na minha bagunçada cama e corria em disparada para a casa da minha vó. Ah, como era bom ficar ao lado da minha vozinha. Comer da sua comida, meter as mãos nos bolsos dos vestidos dela em busca de dinheiro.
Vivíamos uma paixão explosiva. Não conseguia ficar longe dela, como também ela de mim. Seus abraços eram muito protetores, verdadeiros... Sentia que, ali, era meu porto seguro. Por isso, é muito difícil, hoje, viver longe dos seus carinhos.
Minha relação com minha vó sempre foi de excelente para magnífica. Até hoje, por exemplo, ela é um espelho de vida para mim. Não a admirava apenas por ser a “mãe da minha mãe”. Era algo bem mais complexo. Dona Lucília – a razão do meu viver - é um ser raro, daqueles que não se encontra em qualquer lugar.
Eu, sinceramente, acredito que ela é representante de Deus aqui na Terra. Apesar da minha pouca idade, nunca encontrei alguém com sua generosidade e simplicidade.
Já vi dona Lucília quebrar vários paradigmas. Por isso, ela é muito respeitada em Luis Gomes. Também, pelas suas atitudes, não podia ser outra coisa. Mãe Lucília, como é conhecida na cidade por causa da sua profissão de parteira, realizou cerca de 7 mil partos, incluindo o meu e dos meus três irmãos.
Trabalhou só até os 84 anos. Pouco, né? Só parou porque o tempo a aposentou “à força”, mas, até hoje, continua a atender as gestantes da região em sua própria residência, mais especificamente em sua cama.
Eu, inclusive, já presencie esse fato várias vezes durante minha infância. Ela não cansava. À noite, fazia plantão no hospital da cidade e, no restante do dia, ficava à disposição de quem precisasse de seus conhecimentos.
Mas nem tudo foi cor de rosa na vida dessa guerreira. Assim como muitas mulheres do País, sofreu com o alcoolismo do marido, que a abandonou com os quatros filhos ainda crianças. Nem por isso desistiu de viver e, também, não se entregou às tentações fáceis do mundo. Pelo contrário. Criou os filhos com hombridade, coragem e dignidade. Hoje, graças aos seus esforços e a Deus, são pessoas dignas de respeito.
Infelizmente, no final de 2008, perdeu o amado filho caçula, Patrício. Ainda sofre bastante com a partida de seu fiel companheiro, é verdade. No entanto, continua com o mesmo vigor de sempre, lúcida e cheia de vontade de viver. Confesso com todo orgulho desse mundo: minha vozinha não se entrega fácil.
E, no dia 25 de abril deste ano, dona Lucília completou 87 anos de vida. E nós, de sua família, estamos comemorando como nunca. Ela é nosso exemplo, nosso porto seguro, nosso alicerce... Espelho-me muito nela, mas, ser igual a dona Lucília, é praticamente impossível, ainda mais para mim. Entretanto, já me contento em ela ser a mulher da minha vida.